Instrumento pouco conhecido entre a população, as Bolsas de Resíduos é uma estratégia recomendada pela Agenda 21 Brasileira como forma de contribuir com o desenvolvimento sustentável em esferas federais, estaduais e municipais, estimulando o aproveitamento de resíduos urbanos e industriais e sua reciclagem. Elas ajudam a movimentar toneladas de materiais no Brasil.
Um tipo de “bolsa de valores” virtual, a ferramenta é como um banco de dados com informações sobre os aspectos quantitativos e qualitativos dos resíduos gerados e funciona como um mural de oferta e procura. Esse mercado está se estruturando no meio empresarial. A troca de materiais como plástico, vidro, borracha, madeira, entre outros, também acontece entre os próprios empresários. O que antes era um problema passa a ser uma oportunidade de negócio. Ao invés de contratar um serviço de coleta
para retirar o resíduo do
pátio da sua indústria e levar ao aterro e pagar para deixá-lo ali, ele pode vender esse material como insumo para outro empresário, com quem se comunica pela internet.
Oportunidades
A utilização de resíduos como fonte de matéria-prima alternativa ou como aditivos na fabricação de alguns produtos é cada vez mais comum, como a recuperação dos componentes das lâmpadas fluorescentes, da borracha de pneus usados, do alumínio das latinhas de bebidas, do plástico das garrafas PET. Mas alguns casos são necessários estudos para viabilizar esse processo, que reduz custos da empresa e torna os preços mais competitivos, contribuindo para que eles não acumulem nos pátios industriais e nos depósitos comerciais.
A Bolsa de Resíduos apenas oferece um espaço virtual para que o negócio aconteça, já que as negociações se realizam entre o anunciante e o comprador depois de um contato direto.
Um dos pontos de discussão no
serviço oferecido pelas Bolsas de Resíduos é a garantia do
sigilo da identidade das indústrias que oferecem seus resíduos. Em alguns sites, apenas as informações pertinentes ao resíduo são disponibilizadas e, em caso de interesse na compra, o Sindicato representante do segmento faz a intermediação entre as partes. O contato direto só ocorrerá após o consentimento oficial da empresa geradora, utilizando um documento virtual específico que deve ser remetido ao Sindicato.
Alguns sites oferecem, além do cadastro e do mural, outros serviços como a divulgação de cursos, livros, manuais técnicos, normas técnicas, legislação ambiental (estadual e federal), artigos e notícias sobre o tema. Alguns ainda indicam outros sites para consultas. Em nossa pesquisa, todas as bolsas encontradas ofereciam esse serviço gratuitamente e a maior parte delas está ligada à Federação da Indústria do seu Estado.
Objeto de estudo
Esse tipo de serviço já é objeto de estudo acadêmico. É o caso do Trabalho de
Conclusão de Curso (TCC) desenvolvido em 2007 pela
goiana, Grazzielle Nunes Silva, para a graduação em Engenheira Ambiental pela Universidade Católica de Goiás (UCG). Ela conta que a idéia surgiu logo após um estágio de férias na Suzano Papel e Celulose – unidade Mucuri (BA). “Vi um trabalho de aproveitamento dos resíduos na empresa, então pesquisei e descobri os programas de Bolsas de Resíduos. Então resolvi fazer um levantamento da Bolsa do Estado de Goiás, como TCC”, justifica.
Seu tema de projeto, que durou nove meses, foi Bolsa de Resíduos no Estado de Goiás: uma contribuição para a gestão do lixo industrial. A engenheira conta que, inicialmente, a abrangência da pesquisa seria somente o Estado de Goiás, mas que, ao fazer o levantamento das empresas cadastradas na Bolsa, notou anúncios de empresas de outros Estados.
Na primeira fase do projeto, a Grazielle realizou uma pesquisa bibliográfica sobre o tema em livros, revistas, sites, e nos órgãos envolvidos, a Federação das Indústrias do Estado
de Goiás (FIEG), que hospeda a Bolsa,
e a Agência Goiana de Meio Ambiente (AGMA). Em seguida, levantou o histórico e a situação atual da ferramenta, pesquisando também sites de outros Estados. E, finalmente, buscou os contatos das empresas que realizaram algum cadastro na Bolsa. “Enviei um questionário, via e-mail, para as empresas cadastradas no programa e que negociavam resíduos a fim de avaliar o funcionamento. No caso das que não puderam ser contatadas via e-mail, fiz ligações telefônicas”, diz.
Das 75 empresas contatadas, apenas 15 (20%) responderam ao questionário. Ela destaca entre os resultados que os resíduos de ofertas são maioria, representando 68,83% dos anúncios, enquanto a procura representa 31,17%. Duas empresas estavam em fase de negociação e uma aguardando retorno do contato. O número de aproximações para comercialização foi dez, mas apenas duas empresas concluíram. As que não consumiram os resíduos oferecidos justificaram o insucesso das transações pela pouca oferta, os preços elevados, a falta de respostas
por parte das
empresas contatadas e de um melhor detalhamento dos resíduos anunciados em relação à descrição, tipo, quantidade disponível ou requerida, periodicidade, negociações e valores. Grazielle diz que também ficou explícito o apoio e a credibilidade das empresas no funcionamento da Bolsa, mas que elas incentivam a melhora do software para um conseqüente aumento nas transações e na divulgação do programa. “Foi possível verificar que a baixa eficiência da ferramenta disponível está encaminhando a uma situação oposta à esperada. Contudo, permanece a idéia que os resíduos gerados servirão de insumos para novos ciclos produtivos, evitando a retirada de matéria-prima natural”, destaca.
Depois de analisar as informações obtidas, Grazielle encaminhou os resultados para a FIEG. Ela defende que a bolsa de resíduos é uma iniciativa que deve ser difundida. “Para que cada vez mais a idéia de desenvolvimento sustentável, produção mais limpa, lucro e, principalmente, cuidado ao meio ambiente faça parte da
rotina das
indústrias do Estado”, justifica a engenheira, que concluirá este ano uma especialização em Tratamento e Disposição Final de Resíduos Sólidos e Líquidos pela Universidade Federal de Goiás (UFG). O trabalho, apresentado à banca em dezembro do ano passado, obteve a nota 9,5.