Maratonista incentiva corrida entre moradores do Capão Redondo, zona sul de São Paulo
15/07/2011 14h37min  |  Susana Sarmiento
 
| Outros


Eram quase oito da manhã e na segunda entrada do parque Santos Dias, era possível ouvir a música alta e as pessoas contando os exercícios de aquecimento, em uma região arborizada do Capão Redondo, bairro da zona sul de São Paulo. Havia jovens, mulheres, homens e idosos. Todos se aqueciam para caminhar e correr no espaço. Trata-se do projeto Vidas Corridas, idealizado pela maratonista Neide Santos.

Fã de esportes, aos 14 anos, Neide substitui uma atleta em uma maratona de revezamento quatro por cem em um campeonato de escolas. Ela conseguiu o melhor resultado na corrida e lá encontrou sua paixão: correr.

A vontade de correr de forma profissional sempre foi constante em sua vida, porém queria se formar em outra profissão e continuar em seu trabalho da época. Ela é professora e atuou na alfabetização infantil. Conciliava a corrida nos fins de semana. “Continuei minha vida de atleta em corridas de rua. Nunca consegui grandes resultados por ter que estudar e trabalhar ao mesmo tempo. Mas sempre tive grande potencial para isso”, afirma Neide.

Aos 30 anos, Neide se tornou maratonista e correu sua primeira Corrida Internacional São Silvestre em 1977, como uma das primeiras mulheres. Ela acredita e defende o esporte como uma importante ferramenta de mudança social. “O esporte ajuda a educar, a disciplinar em muitos aspectos. Naturalmente a pessoa se cuida melhor, se alimenta de forma mais balanceada”, reflete.

O projeto nasceu das corridas matinais de Neide no bairro e um grupo de seis mulheres pediu sua ajuda para iniciar nessa atividade. Ela fez um teste durante 15 dias acompanhando em caminhadas e alongamento necessários.  “De certa forma, para algumas mulheres da comunidade, eu não tinha ocupação. Por correr, elas achavam que não trabalhava e ficavam curiosas de que como, eu, com 39 anos, mãe de três filhos, estava tão bem com meu corpo. Aquilo chamava muito atenção”, recorda-se.

Há mais de 12 anos, Neide estimula a atividade física em mulheres, crianças e adultos da região. Dá aulas de alongamento, caminhada e corrida para esse público. Atualmente consegue mobilizar por cada manhã cerca de 120 pessoas.
Em 2009, Neide inscreveu o projeto no Desafio Mulheres Virando o Jogo no Esporte - Gamechangers, do Programa Changemakers da Ashoka e a Nike. Essa iniciativa é aberta a iniciativas inovadoras para colaborar a dar visibilidade internacional, ampliar a possibilidade de acesso a recursos financeiros. Vidas Corridas foi selecionado entre as ações de inclusão por meio do esporte. Também receberam o Prêmio Esporte e Cidadania, da Secretaria Municipal de Esportes, Lazer e Recreação, em parceria com a Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil.

Todos podem participar. Os interessados passam por uma semana de aula experimental. Fazem atividades de condicionamento e alongamento. Se a pessoa gosta do grupo e se identifica com a proposta, já podem levar um atestado médico, comprovante de residência para confirmar que vive na comunidade, e um formulário com as principais informações pessoais junto com termo de responsabilidade. “Em geral, todos começam com caminhada. Depois de um período, eles correm. Já as crianças participam de atividades lúdicas e depois treinam. Elas escolhem se querem ficar ou não.”

Up na autoestima

Durante o aquecimento, o sono é combatido com muita animação dos integrantes do grupo. Maria Domingaz Nunes, de 53 anos, é uma das participantes e está há nove anos. Depois de uma consulta em um posto médico do bairro, foi indicada para caminhar para aliviar as tensões musculares. No parque Santos Dias, conheceu Seu Mário, também integrante, que convidou para fazer parte do grupo. “Eu falava para Neide que nunca conseguiria correr 1 km e agora consigo chegar aos 10 km. Minha última corrida foi a Maratona Internacional de São Paulo, que aconteceu no dia 19/6. Eu corro todos os dias e começo minhas atividades às sete da manhã”, conta a moradora do bairro.

Já Monica Batista Guedes, 36 anos, é moradora do Jardim Rosana, próximo ao Capão Redondo. Por falta de atividade física, começou a sentir dores de fibromialgia nas articulações. A costureira já conhecia o projeto, mas nunca participava. “Nunca tinha iniciativa de ir. Como estava com pés inchados, tomava muita medicação controlada. Até que um dia decidi caminhar. Hoje eu até corro e sinto menos dor. Não preciso mais tomar remédios. Também sofria com reniti e estou mais atenta com minha alimentação.”

Há três anos Mônica participa de corridas todos os domingos e levou duas primas para o projeto e sua mãe, que apenas caminha.

Lívia Abade, 42 anos, professora e moradora do Jardim Germânia, perto do Campo Limpo, na zona sul da capital paulista, participa da iniciativa há três anos. Desde jovem tinha o sonho de correr. “Em uma festa de uma vizinha, uma mulher comentou do projeto e fui conhecê-lo. Gostei e não parei mais de ir. Minha primeira corrida de revezamento foi a do Pão de Açúcar, na metade de 2008. Ao invés de correr 5 km, percorri 10 por não ter encontrado minha colega. Sempre faço questão de falar para Neide que ela me ajudou a realizar um sonho, ser uma corredora”.

Sede em construção

Com patrocínio da Nike em parceria com a ONG Architecture for Humanity, o projeto terá uma sede para reunir todas as ações que desenvolve para a comunidade. Incluirá um centro de treinamento esportivo, no parque Santos Dias.

A iniciativa conta com patrocínio da Nike para material esportivo. A empresa Skin fornece três mil garrafas de água por mês aos participantes. No ano passado, a idealizadora do projeto relata que receberam um prêmio de 36 mil reais do Circuito de Corrida e Caminhada da Longevidade da Bradesco Seguros. Neide explica que esse dinheiro irá colaborar para a organização dos trabalhos do projeto, que atualmente envolve: uma associação de moradores, uma associação esportiva, uma creche, a ONG e um clube da comunidade. “A corrida é uma das ações. Hoje esses participantes sabem o que significa sustentabilidade. Separamos o óleo usado na cozinha para encaminharmos para uma empresa produtora de bióleo e o recurso colabora para Vidas Corridas”, esclarece. A maratonista conta ainda que as 70 mulheres cadastradas na iniciativa doam sangue e plaqueta.

“Posso oferecer apenas meus pés e meu coração. Não conquistei minhas medalhas nem o ouro olímpico, mas aconteceu uma transformação social. Estou dando uma comunidade que não tive. Aprendi a amar as pessoas, não apenas meus filhos. Aprendi a amar os filhos dos outros. Aprendi que todo mundo precisa ensinar o que aprendi. Amanhã vão lembrar que uma mulher chamada Neide Santos olhou para a comunidade com outros olhos e não ficou esperando o poder público. Hoje não tenho meu filho fisicamente, mas sinto em cada abraço que eu ganho, de mais de300 pessoas participantes do projeto”, emociona-se a maratonista.

     Serviço:

Para conhecer mais o Vidas Corridas, acesse: http://vidacorridaparquesantodias.ning.com/
 
 
             
 
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