“Não pergunte do que o mundo precisa, pergunte o que te faz sentir vivo, porque o mundo precisa é de pessoas que se sintam vivas”, diz Premal Shah, presidente do Kiva, dos Estados Unidos, uma organização sem fins lucrativos (em suahíli, significa acordo, unidade) que conecta pessoas com objetivo de diminuir a pobreza por meio do microfinanciamento a pequenos empreendedores. Ele é um dos 18 entrevistados no documentário Quem se importa, dirigido por Mara Morão, lançado em São Paulo no dia 13/4.
O filme conta com a produção da Mamo Filmes e Grifa Filmes e produção associada da Gullane Filmes. A diretora paulista produz um documentário para apresentar quem faz a transformação social por meio do empreendedorismo, quem são esses atores, onde eles trabalham e o que acreditam, quais
são suas dificuldades, suas características, suas
alegrias, suas conquistas. Para fazer esses registros, a equipe percorreu Brasil, Peru, Estados Unidos, Canadá, Tanzânia, Suíça e Alemanha.
Quem se Importa traz histórias de homens e mulheres que pensaram e conseguiram desenvolver ações para combater determinada situação incômoda. Em geral, são iniciativas de baixo custo e com alto impacto social, econômico e ambiental. Essa produção conta com patrocínio das seguintes empresas: Bradesco, Kraft Foods, Natura, CSN White Martins, Thyssen Krupp, McKinsey, Camargo Corrêa, Ambipar e Talent. Também apoiaram: Mattos Filho Veiga Filho Marrey Jr. e Quiroga Advogados, PROAC e Governo do Estado de São Paulo.
A diretora do documentário já desenvolveu produções veiculadas em emissoras, como TV Globo, TV Cultura, Discovery Channel e Fox. Apresenta em seu currículo quatro longas: Alô?! (1998); Avassaladoras (2002); Doutores da Alegria (2005) e Quem se Importa (2012). Também recebeu vários prêmios nacionais e internacionais. Mara Morão é diretora
da Mamo Filmes.
Confira a conversa com o Setor3 sobre a produção e repercussão do filme Quem se Importa:
Portal Setor3 – Em qual momento você decidiu que faria um documentário sobre empreendedorismo social? Quando e como foi esse estalo?
Mara Morão – Tinha feito duas comédias e, quando fiz o Doutores da Alegria, a resposta do público foi muito tocante. Os depoimentos do público foram tocantes, alguns disseram que mudou o jeito de olhar o mundo, outros optaram por outra carreira. Estava acostumada com a reação das pessoas que viam minhas comédias e fiquei chocada e senti na pele o impacto que o cinema pode causar. Eu já ouvia falar das histórias dos empreendedores sociais da Ashoka,
porque meu marido é presidente do Conselho da Ashoka e conheço muitos fellows. Já ouvia falar
dessas histórias e sempre dizia que isso daria um filme. São histórias muito bonitas. Foi um caminho natural. Depois dos Doutores da Alegria, eu já queria fazer um filme sobre empreendedorismo social. Pesquisei, captei recursos e chegamos a esses nomes. No filme, há 18 pessoas com muita dor no coração. Tem muita gente maravilhosa pelo mundo afora fazendo coisas fantásticas. Tivemos que optar. Meu critério foi escolher pessoas de continentes diferentes, de áreas de atuação distintas, com facilidade para falar, com imagens para ajudar a ilustrar o trabalho delas. Quis mostrar a riqueza e a diversidade do empreendedorismo social. Acho que o filme passa para as pessoas que, independente da área, qualquer um pode fazer a diferença. Esses exemplos podem inspirar as pessoas a serem transformadoras. Queria que muita gente maravilhosa estivesse no filme, mas ficará para o dois, ou para uma série de televisão, ou para outro longa-metragem.
Portal Setor3- O tema envolve o público. Vocês
tiveram um
envolvimento da equipe. Como foi isso?
MM- Eu me inspirei com meu próprio filme e criei um movimento aqui no meu bairro. Eu fui inspirada pelo meu próprio filme. Isso aconteceu a partir de setembro do ano passado. Acho que a equipe toda ficou muito tocada pelo que viu no filme e muita gente já quis fazer seu trabalho de conclusão de curso com o documentário, com essas questões do empreendedorismo social. A equipe da trilha sonora, por exemplo, começou a se envolver com uma ONG. O impacto social de um filme vai como uma onda, que não se mede pela bilheteria, porque filmes pequenos, como Uma verdade inconveniente, do Al Gore, e Super Size Me - A Dieta do Palhaço, do Morgan Spurlock, por exemplo, não podem ser comparados com filmes de ficção. Eles causam um impacto e um estrago em um
bom sentido.
As pessoas estão transformando o
filme em um movimento. Costumo repetir que isso é muito mais que um filme. Muitos entram na página do filme e estão compartilhando informações em nossa página no Facebook. É um movimento do quê? Não, é um movimento de inspiração. Inspira pessoas a serem transformadoras. Antes do filme, achava a frase “Vamos mudar o mundo” piegas, infantil, boba. Hoje em dia depois de ouvir todo esse pessoa, mudei de opinião. Vi que basta a gente arregaçar as mangas e partir para a ação. Uma pessoa na pré-estreia do Rio de Janeiro que disse: Mara, realmente o filme mudou minha vida, porque hoje estava pensando em largar meu trabalho para cuidar de uma comunidade indígena, e o filme me fez decidir para ir. Outra pessoa já comentou: Mara, esse filme mudou meu RG. E os jovens que saem empolgados e interessados em desenvolver uma atividade com impacto. É como uma onda quântica. É muito bonito de ver as pessoas querendo levar o filme para suas
cidades.
Portal Setor3 - Como foi contato das fontes?
MM- Entrevistei o Yunnus (Muhammad) em 2009, aproveitei uma das viagens dele para cá. Fiz várias viagens. Teve gente da África que me encontrou em Washington, outros vieram ao Brasil. Fui para Vancouver (Canadá), Toronto (Canadá), Washington (Estados Unidos), São Francisco (Estados Unidos), Hamburgo (Alemanha), Suíça, Peru e partes do Brasil, como a Amazônia. Essas pessoas não param. Eu optei por aquele fundo neutro, porque as pessoas sempre estão fora do seu local de trabalho, tem uma agenda maluca, eu pensei em unificar com esse fundo, porque nem sempre vou encontrar as pessoas em seus locais ideias.
Portal Setor3 – Como você construiu o “caminho” do documentário? Como misturar as falas de importantes empreendedores sem ficar cansativo?
MM- A gente chamaria isso de roteiro do filme.
Ficamos um ano editando o filme. Eu tenho um material muito rico, praticamente quatro
horas de entrevistas com cada fonte. No filme, ficam de quatro a cinco minutos de cada um deles. Procurei construir quase que um pensamento só com depoimentos de várias pessoas. Eu já tinha esse arco dramático, mas, quando você senta na filmagem, vê a fala de cada um e afina mais ainda o roteiro. Para não virar uma colcha de retalhos, eu fui por assuntos e tentei encaixar as histórias de cada um. Alguns entrevistados aprofundei mais o trabalho da iniciativa, outros apenas criei uma curiosidade. Tem história ali que as pessoas precisam pesquisas na internet.
Portal Setor3- Como foi a produção do projeto educativo para ser discutido em sala de aula, ou em grupo social, ou numa ONG?
MM- Foi bem tranquilo. Eu passei tudo que eu queria para a sala de aula para a Casa Redonda Cultural. Ela elaborou esse material didático com a minha supervisão. Em
38 páginas, o arquivo está em uma linguagem acessível e
todos podem fazer download. Queríamos facilitar a vida do educador para chegar em muitas escolas. Um geólogo na pré-estreia do filme no Rio de Janeiro sugeriu que o documentário fosse obrigatório para quem estiver em época pré-vestibular para as pessoas abrirem a cabeça na hora de escolher uma profissão.
Portal Setor3- Como estão os convites para divulgação do filme?
MM- As categorias dos pedidos mais solicitados são: quando chega o filme na minha cidade; posso mostrar na minha escola e como faço para baixar o filme, ou comprar o DVD. São muitos pedidos de ONGs, instituições como SENAC e outras entidades pedindo palestras. Na próxima semana, darei para a equipe da Editora Abril. Depois faço sessões aos patrocinadores. Hoje (20/4) foi lançado no Rio de Janeiro. Em maio, queremos lançar em Belo Horizonte (MG). Será um filme que tentarei ainda distribuir internacionalmente. Participei ainda da 13º
Social Enterprise Conference, organizado pelos estudantes da Universidade de Harvard e é conhecida como um dos principais encontros sobre empreendedorismo social.
Portal Setor3 – Que outros formatos para lançar esse filme?
MM- Primeiro queremos focar no lançamento mais convencional, depois DVD com streaming do filme. O próximo passo seria tentar disseminar o máximo para as escolas. Na hora que sair o DVD, ficará mais fácil enviar para todas as escolas públicas. Quero democratizar o máximo de acesso ao filme. Tornar o preço mais social, tornar o preço do streaming mais social. A minha ideia não é ter um DVD de 29 reais vendido na Livraria Cultura. Não é isso que eu quero. A missão é espalhar. Se eu fiz um filme para mudar o mundo, devia jogar logo no Youtube, mas eu não posso, porque além de ser um movimento, ele e filme e tem compromissos com a distribuidora. Eu tenho que fazer o balanço das duas
coisas.
Portal Setor3- Para
finalizar nossa conversa, como você enxerga esse retorno do público? Como trabalhar com esse retorno?
MM- O filme está aos poucos se convertendo para um movimento. Pretendo que o site do filme e a página do Facebook se tornem centros de informações, de iniciativas legais que estão sendo feitas. É um caminho a longo prazo. Primeiro estou preocupada com o lançamento do filme, enquanto obra cinematográfica. Quanto melhor ele for ao cinema, melhor ele sairá no DVD. Irá impactar nas redes, nas escolas. Estou preocupada com distribuição internacional. Paralelo a isso, estou preocupada em estruturar tudo isso e converter o filme em um movimento.