Megaron Txucarramãe conversa com o Portal Setor3 sobre a importância da consulta dos povos da floresta para a construção da Usina Belo Monte e seu afastamento da Funai
16/05/2012 17h17min  |  Susana Sarmiento
 
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Crédito: Paulo Fernando/Com Ciência Ambiental



No final de março, o Portal Setor3 conseguiu entrevistar o cacique kayapó Megaron Txucarramãe, uma das tradicionais lideranças indígenas do País. Conhecido pela sua posição contrária à construção da Usina de Belo Monte, o indígena foi demitido sem aviso prévio da Coordenação Regional da Funai de Colíder, em Mato Grosso, no final de outubro do ano passado. Confira a entrevista com o primeiro índio a chefiar o Parque Nacional do Xingu:

Portal Setor3 – Qual seria o ideal de articulação para defender os direitos dos indígenas? Qual seria a principal articulação? A criação de um órgão ou não?

Megaron Txucarramãe- Aqui no Brasil tem vários povos indígenas e cada povo ocupa vários Estados e eles têm costumes diferentes e contatos com homem branco há mais tempo e alguns nem tanto. Já está mais aculturado e não estou autorizado para falar de outras etnias, porque eles vivem em outros Estados e com outros jeitos de viver, outro contato com homem branco. Prefiro falar da minha etnia, do meu povo, o Kayapó. Nós vivemos em dois Estados. Para nós não tinha fronteira. Não tinha limite, nós éramos todos livres. Terra livre, não tinha limite de Estado, nem de município. Quem podia falar é o presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), órgão que cuida de todos os indígenas do Brasil. Eles têm autorização para falar desses povos.

Meu povo mora na terra indígena Capão da Jarina, ligado ao Parque Nacional do Xingu, localizado no Norte do Mato Grosso com Pará. Um povo que vem lutando pelo seu direito e para demarcar suas terras e para preservar seus costumes. Preservar seu território e isso que meu povo vem fazendo, meus tios, meu tio Raoni, meu tio Kromari, meu tio Kremoro, parentes meus que eram grandes lutadores para preservar e defender seu povo. Por que a doença que os indígenas sabem tratar, eles tratam, agora aquelas que não sabem precisam de ajuda dos médicos, de medicação do homem branco.

Portal Setor3- Como está sua relação com a Funai após sua demissão no ano passado?

MT-Antes eu ocupava o cargo de coordenador da Coordenação Regional de Colíder (MT). Muitas vezes não concordava com algumas coisas que o presidente da Funai fazia, o Márcio Meira. Isso fez com que ele tirasse minha função. Eu continuo como funcionário. Sou armazenista. Eu tomo conta do armazém.

Portal Setor3 – Como foi apoio da comunidade local para sua saída? Foi encaminhada uma carta? Você pediu alguma justificativa da sua saída?

MT- Quando aconteceu isso, o cacique Raoni (tio de Megaron) fez uma carta ao ministro da Justiça para revogar essa portaria para eu continuar como coordenador e o ministro chamou para uma conversa com ele. Fomos para Brasília, no dia 23/11, para reunir com assessor do ministro e também uma pessoa da Presidência da República, Paulo Valdo. Eles me chamaram com a ideia de me ajudar a revogar a portaria da mudança do meu cargo. Depois eles me mandaram uma carta dizendo que não tinha condição, porque eu tenho um processo administrativo na Funai. O Márcio Meira abriu o processo contra mim. Tem coisa que foi mal feita na época que eu tinha uma equipe que não eram técnicos de licitação, todos com outras profissões. Eram funcionários da Funai, porém sem experiência na área.  Uma Comissão fez esse processo, que impede de voltar como coordenador. Não é por isso que ficarei parado, quieto, continuarei lutando pelo meu povo.

Eles falaram que não havia jeito de voltar, mas pediram para que escolhesse outra pessoa. Os indígenas escolheram outro indígena para ocupar o cargo de coordenador e isso aconteceu em dezembro. Passaram janeiro, fevereiro e março e até 15/3 o presidente da Funai não resolveu nada, não assinou a portaria de outro indígena que poderia ser coordenador. Os indígenas pressionaram a Funai para assinar a portaria de outro indígena que irá me substituir, mas não ocupará o cargo de coordenador. Na semana retrasada (março de 2012), o presidente da Funai assinou a portaria e declarou como coordenador substituto o indígena Pituyaro Metuktire. Ele comentou que entre dois meses assinaria a portaria para torná-lo coordenador titular.

Portal Setor3 – Alguns movimentos e articulações, como o Xingu Vivo Para Sempre, colocam o tema em debate e discussão nas redes. Gostaria de saber como você avalia o apoio das organizações da sociedade civil sobre a questão da construção da usina hidrelétrica de Belo Monte entre diferentes atores não indígenas?

MT- O povo lá perto do projeto Belo Monte não têm contato aqui. Acho que tem muito pouco contato aqui com o povo do sul. Eles precisam de ajuda, de apoio. Não é você ir lá e ajudar, precisa fazer outro movimento. No ano passado, vim aqui para participar de um movimento. Foi uma manifestação na Avenida Paulista, eu vim e participei junto com outros indígenas. Isso é que nos estamos precisando, de apoio para mostrar ao governo que o que ele está fazendo vai prejudicar quem mora lá muitos anos. A crise indígena veio de outro lugar. Eles são de lá, vivem lá há muitos anos. A gente não sabe direito aonde que o governo levará o povo que mora nesse território. Os técnicos do projeto Belo Monte, junto com a Eletrobrás, e a Funai não chegaram lá para ouvir e explicar ao indígena, como irá afetar. Os indígenas não sabem o que está acontecendo e quando irá olhar será tarde demais. O indígena quer mais explicação, na linguagem deles.

Portal Setor3- Qual é a repercussão da posição dos indígenas a favor de Belo Monte?

MT- Tem sim indígenas a favor da obra de Belo Monte. Eles têm contato com Funai, com Eletronorte. Eles acham que é bom para eles naquele momento que estão recebendo dinheiro, combustível, cesta básica. Não é isso que irá resolver o problema do índio. Precisa explicar para eles que essa obra vai inundar a terra deles e aonde eles irão? Isso precisava explicar, ele precisa ouvir do governo. Os indígenas de lá não entendem, não sabem o que está acontecendo, já é muito tarde. O cacique Raoni vem lutando. Ele fala que precisamos nos unir.

Portal Setor3- Estamos em um momento muito importante sobre sustentabilidade. Acontecerá em junho a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. Você é otimista com esse evento em relação aos direitos indígenas?

MT- O governo vai esconder tudo. Não vai querer mostrar nada. Mostrar que tudo está bonito.

Portal Setor3 – Com 61 anos e toda sua experiência, a vivência em uma aldeia, qual recado você deixa aos jovens?

MT- Eu diria que esses jovens de hoje estão vivendo em outro tempo. Meu tempo é outro. Hoje é outro jeito de ver. Podia estar melhor; ter mais respeito; mudar o pensamento, o jeito de pensar, de viver e de respeitar um ao outro. Eu diria aos jovens para eles continuarem lutando para preservar o pouco floresta que ainda resta, pouco dinheiro que ainda está preservado e que respeitem os povos da floresta. Que respeitem a floresta, o meio ambiente. Há povos que moram na floresta e nem são indígenas. Vivem dos recursos da floresta e exploram para viver e vem uma grande empresa e acaba com tudo para plantar soja, por exemplo. Os jovens podiam olhar pra isso, respeitar!

     Serviço:

Movimento Xingu Vivo para Sempre: www.xinguvivo.org.br

Confira a notícia sobre encontro com lideranças indígenas:
Encontro de lideranças expõe posições contrárias à construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte
 
 
             
 
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