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Os números e os pontos de vista mudam de acordo com o papel no ciclo nacional de ferrosos e não-ferrosos
14/10/2008 17h17min  |  Juliana Rocha Barroso
Série apresenta os impactos da reincidência de tributos sobre os recicláveis e revela as relações entre intermediários, recicladores e indústria
 
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São várias as cadeias dentro do macro setor da reciclagem. Quando tratamos das matérias em sua origem primária, a análise desses mercados fica mais fácil, mas quando olhamos pelo aspecto da entrada de materiais recicláveis, que podem estar misturados como insumo retornando ao processo produtivo e formando novos produtos, essa análise é mais complicada. É o que acontece na cadeia dos materiais ferrosos (ferro e aço) e não-ferrosos (alumínio, zinco, magnésio e cobre).

Representando o segmento de fundição, a Associação Brasileira de Fundição (Abifa) foi fundada em 25 de abril de 1969 e, inicialmente, tinha como compromisso o desenvolvimento tecnológico das empresas. Ampliado, com uma atuação nacional em temas políticos, econômicos e sociais, o compromisso hoje é incentivar o crescimento sustentado do setor.

“Para fundição é usada Gusa (matéria-prima primária) e sucata (reaproveitado para a fundição). No processo você precisa ter uma medida de sucata e não pode ter resíduo misturado, por isso o que entra como sucata são apenas as ferrosas. Compramos pronto para o uso”, explica Jurandir Sanches Carmélio, chefe do núcleo de Estudos de Mercado da Abifa.

Fonte oficial de dados sobre fundições para o Ministério de Minas e Energia, a associação só possui informações de sucata industrial preparada. Em 2006, a instituição registrava 1372 indústrias de fundição cadastradas no País (50% delas de não-ferrosos), empregando 55.324 pessoas. Naquele ano, foram processadas 895.000 toneladas de sucata no setor de fundidos ferrosos e aços. Já em relação à Gusa, foram 1.300.000 toneladas. O faturamento foi de 6 bilhões de dólares. A produção anual saltou de 2.968,6 toneladas, em 2005, para  3.227,1 em 2007, e o número de empregados saltou para 59.313.

Já a siderúrgica possui fornos de capacidade maior, que comportam uma qualidade inferior de sucata para a produção de chapas de aço e ferros em vergalhões. Hoje, o parque siderúrgico brasileiro é composto por 25 usinas, administradas por oito grandes grupos empresariais: ArcelorMittal Brasil; Aços Villares; Grupo Gerdau; CSN;  Usiminas/Cosipa; Siderúrgica Barra Mansa; V&M do Brasil; e Villares Metals.

Dados do Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS), da Superintendência da Receita Federal, do Ministério da Fazenda (SRF / MF), e da Secretária de Comércio Exterior, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (SECEX / MDIC), relativos às usinas associadas ao IBS, revelam que, em 2006, foram geradas no País 3.045.000 toneladas de sucatas de ferro e aço e adquiridas no mercado interno 5.899.000 toneladas. O consumo foi de 8.783.000 toneladas. Foram importadas 56.000 e exportadas 34.000 toneladas. A produção de Ferro-Gusa no mesmo ano por empresas exclusivas do ramo foi de 32.452.000 toneladas. O faturamento foi de 24.995 bilhões de dólares. Em novembro de 2007, o setor empregava 117.791 pessoas.

Enquanto a Abifa tem os dados do consumo de toda a sucata que entra nas fundições, o IBS tem os da que entra nas usinas siderúrgicas. A diferença é em relação ao tipo de sucata. A utilizada na fundição é uma sucata mais selecionada, de melhor qualidade.

Outra diferença está no seu processo produtivo. As usinas de aço do mundo inteiro classificam-se em: integradas, que operam as três fases básicas (redução, refino e laminação); semi-integradas, que operam duas fases (refino e laminação) e partem de ferro gusa, ferro esponja ou sucata metálica, adquiridas de terceiros para transformá-los em aço em aciarias elétricas e sua posterior laminação; e as unidades produtoras chamadas de não-integradas, que operam apenas uma fase do processo (redução ou laminação).

No primeiro caso, estão os produtores de ferro gusa, chamados guseiros, que têm como característica comum o emprego de carvão vegetal em altos fornos para redução do minério. No segundo, estão os relaminadores, geralmente de placas e tarugos adquiridos de usinas integradas ou semi-integradas e, no terceiro os que relaminam material sucatado. No mercado produtor operam ainda unidades de pequeno porte que se dedicam exclusivamente a produzir aço para fundições.

Preparadores de sucata

Congregando as empresas que compram de depósitos e fazem o processamento da sucata de ferrosos e não-ferrosos para vender à indústria, o Sindicato Nacional Comércio Atacadista de Sucata Ferrosa e Não-Ferrosa (Sindinesfa) representa empresas do terceiro grupo apontado acima, as unidades não-integradas. O sindicato possui também o Instituto Nacional das Empresas de Preparação de Sucata Não Ferrosa e de Ferro e Aço (Inesfa).

“Preparadoras”, como são classificadas, essas empresas pegam a sucata e a processam usando maquinários ou fazendo fardos. Com uma dessas máquinas é possível colocar um carro inteiro, tirar todas as impurezas e deixar só o ferro, por exemplo. “Tira a tinta, o aço, separa o metal nobre separa também. Fica só o ferroso”, garante o presidente do Sindinesfa, Sergio Camarini.

Ele diz o sindicato tem como premissa básica o diálogo com todos os atores que compõem a cadeia. “Acreditamos que o setor só tem a ganhar com entendimento e transparência entre seus pares, visando sempre melhores práticas por parte das pessoas e empresas.”

Camarini conta que o ferro velho equivale a 25% do material utilizado na produção de todo aço no Brasil. “No exterior, utiliza-se até 70% de sucata nas usinas. Esse porcentual poderia ser ainda maior caso a coleta seletiva fosse mais eficiente”, afirma. O sindicato defende o estímulo à formação de cooperativas de catadores de resíduos recicláveis e seu cadastramento, treinamento e acompanhamento. “O setor emprega mais de 1,75 milhão de pessoas no país, sendo a maior parte dedicada à coleta e separação dos materiais. Temos ciência do papel que exercemos nesse segmento e sabemos da importância do diálogo para o desenvolvimento desse segmento.”

Das três mil empresas do setor, no Estado de São Paulo, 45 são filiadas ao Sindinesfa. Segundo Camarini elas são responsáveis por 50% da sucata utilizada pelas usinas siderúrgicas e fundições. “Estão envolvidos direta e indiretamente na atividade de coleta, seleção, preparação e distribuição de materiais ferrosos cerca de 1.750.000 pessoas, sendo 1,5 milhão catadores”, diz, apontando como faturamento bruto do setor de sucata de obsolescência o valor de 1,4 bilhão de reais.

A sucata de obsolescência provém de trilhos, estradas de ferro, desmanche de navios, entre outros e, segundo Rosa, está estreitamente ligado ao Produto Interno Bruto. “Quanto melhores as condições do povo, mais ele vai consumir. Isso gera sucata e é bem vindo.” Ele destaca a importância deste tipo de sucata. “A própria indústria melhora seu processo, produzindo cada vez menos sucata industrial. Na questão da sustentabilidade, a riqueza potencial que existe no lixo e que não é aproveitada por nenhum dos elos da cadeia é uma questão que a gente deve levantar.”

Adilson Rosa, vice-presidente do Sindinesfa, diz que a Política Nacional de Gestão de Resíduos Sólidos (PNRS) teria impactos positivos, mas traria algumas regulamentações utópicas. “Um deputado ir lá e fazer um projeto sem consultar a  Associação Brasileira de Normas Técnicas fica difícil, pois a ABNT tem normas hoje, mais do que nunca, relativas ao meio ambiente. Acho que é por isso que o projeto de lei está lá há tanto tempo. Tenho a impressão de que não ouviram as entidades, nunca fomos ouvidos em nada e movimentamos uma fábula de sucata. Quer dizer, essa política faz o quê, ela organiza o quê? Ficam aqueles desencontros que depois viram lei e dão problema.”

Para ele, o impacto de uma política nesse contexto pode, inclusive, ser vantajoso para coisas proibitivas. “Sumiram tantos quilos cobre, tantos de... Como você pode agir dentro de um mercado em que tem essas nuances difíceis de resolver? Tem que ser uma empresa, ter registro, criar parâmetros para que ela possa se adequar. Não é que o negócio esteja fechado, mas tem que ter regras para entrar em determinados setores”, defende.

Rosa não acredita que a logística reversa, proposta no Projeto de Lei (PL) da PNRS, é  inviável na prática. Assunto é espinhoso por demandar muito trabalho de articulação, envolve interesses múltiplos, como o interesse social, mas também para a cadeia industrial. “É difícil. Uma indústria automobilística consome diversos tipos de aço. Ela vende cada tipo para um determinado grupo, porque o que esta empresa funde é só aquele determinado tipo de aço. Se eu vendo uma sucata para o grupo Gerdau e ele faz um vergalhão de ferro que vai dentro de uma laje, nunca mais ninguém vai pegar a volta disso”, justifica.

Sobre a dificuldade em falar a relação entre intermediários e catadores, Rosa diz: “Ninguém vai te falar. Se os catadores e os depósitos do porte do nosso fossem credenciados, os catadores teriam condições muito melhores de locomoção, teriam um tratamento mais adequado, mas este pessoal vive no anonimato, então, eles preferem entregar para um outro depósito qualquer pequeno, porque aí não aparece ninguém.”

Camarini acrescenta que o depositário de sucata ganha apenas de dois a três centavos no material. “Tem tanto depósitos pequenos, a concorrência está tão grande, que eu pago 35 centavos hoje na sucata mista, aquela que ele joga na caçamba, e ele paga na porta, para o catador, dos 33 centavos, porque o vizinho dele está pagando 30, 31. Ele anda 500 metros a mais por causa de um centavo. A briga está tão grande que quem está levando vantagem é o catador.”

Eles também reclamam da reincidência de tributos sobre os materiais. “Por exemplo, vendo uma mercadoria fora do Estado onde o imposto é de 12 % e pagamos o total do ICMS em cima da nota, senão o caminhão não passa na barreira. Não se credita o ICM à usina. Acho que deveria desonerar de uma forma ampla, porque é fim e ainda está pagando imposto de renda!”, diz Rosa.

Eles revelam que nem todos os depósitos fornecedores são credenciados. “Para nos garantir em relação à procedência do material não compramos cobre, alumínio, bronze ou outros materiais não-ferrosos, apenas os ferrosos. Temos sócios que só compram não-ferrosos de indústrias como Scânia e Volkswagen, da sucata industrial”, destaca Rosa.

Ele conta que alguns compradores, usinas e fundições, compram o material não processado por já terem como fazer esse processamento. “Isso está ficando caro para a gente. Acabamos competindo na mesma atividade. Só que a gente entregando já pronta, o custo dela é menor.” Camarini diz que o maior grupo siderúrgico no Brasil está desativando todas as máquinas de processamento dentro de seu pátio, passando tudo para a mão de sucateiros. “E é o maior produtor do mundo de aço”, destaca Rosa.

O presidente do Sindinesfa lembra que, com o impacto industrial crescente, a produção está aumentando e, com isso, a geração de sucata. “Nosso mercado interno está bom porque antes exportávamos tudo e essa sucata ia gerar lá fora e não virava aqui”, complementa Rosa. Otimista, ele vê o ramo numa ascendente. “Principalmente das indústrias metalúrgicas e siderúrgicas no Brasil. Sou do tempo em que quando olhava o pátio da usina cheio de produto final tinha medo. Começava a atrasar o pagamento e pedia uma concordata. Hoje não, é o tempo das multinacionais, do mercado interno aquecido. Nunca se viu tanto prédio, edifício por todos os bairros”, conclui.

 

Serviço:

Associação Brasileira de Fundição (Abifa)
www.abifa.org.br

Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS)
www.ibs.org.br

Sindicato Nacional Comércio Atacadista de Sucata Ferrosa e Não Ferrosa (Sindinesfa)
www.sindinesfa.org.br

 
 
 
             
 
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